A dormência acordou-me pelos dedos, resfriados pela noite. Aprumei o corpo ao assentamento, fungando, o nariz vermelho; lembrando-me de não estar sozinho ao deparar-me com Gabrielle em seu sono – que o vagão não quebrava a cada tropeço sobre a linha – na parede oposta à minha, como eu desejei que ficasse, temendo que a criatura tirasse-me os poucos bens que possuía e com eles saltasse aos campos que cruzávamos. O único homem por quem pretendia morrer deixando como herança a minha confiança era o meu pai, se até o óbito lograsse alguma.
Por falta de mentalidade ou excesso de indigência, Gabrielle tremia o frio infiltrado em seu questionável número de roupas – o básico para não horrorizar súcia italiana uma nudez que era-me imaginária desde o primeiro toque óptico em seu corpo fiel demais as orientações da Vênus. Os lábios partidos ficaram mórbidos, arroxeados; os cabelos irrigavam seu rosto com mechas, exigindo espaços entre si, a maior parte sobre o olho direito; as pernas cobriam os braços sobre a barriga que ganhava e perdia relevo com uma paciência que não cabia a um inverno noturno.
Minha indisposição cedia aos talentos que moviam meu sangue e estiveram tão mortos quanto meu companheiro de viagem àquela hora, exigindo ser visto como uma expressão tão indiscreta que não poderia ser posta em palavras, mas copiada; copiada pelos rabiscos de quem sabia fazê-los, abrindo, então, a trouxa ao meu lado e buscando o meu passado artístico – com haste minuta de carvão e um bloco de folhas num agasalho de couro rijo. Nunca me satisfiz com tão pouco material, porém deixaram-me nada além disto; o trem, por sua vez, não permitia-me retratar a perfeição.
Comecei pelo centro da folha, e quando Gabrielle abriu os olhos, meu desenho estava quase no grand finale precário, mas o melhor concebível num vagão. Poderia ter-se desfeito da posição, pregado os próprios lábios, mas não comprometeu o meu trabalho. Avaliei durante poucos segundos o retrato e joguei o material contra a trouxa, repousando os braços sobre os joelhos enquanto ele tomava proximidade. Agachou, pegou o que cria pertencer-lhe e redesenhou-o com seus exuberantes verdes, demorando a fazer qualquer comentário que eu não esperava que fizesse. Pretendia livrar-me disso assim que minhas mãos concentrassem furor suficiente para estraçalhá-lo.
- Falta de prática. – Comentou, despojando a atenção que eu antes dava ao frio, asseverando com os reflexos de seu misticismo que eu jamais teria aptidão para asseteá-lo da Terra ao Olimpo.
- Mi dispiace?
Intrigava que alguém púbere dissesse a um homem de trinta anos que era inexperiente, convencido de ser o artífice da arte e portanto capaz de aprovar ou desaprovar tentativas de excelências como as minhas.
Assisti os feixes delgados de suas mãos mancharem-se sobre o carvão. Riscava e soprava, escurecendo-os mais quando esfregaram a folha, atraindo seu mérito: Minha curiosidade, ainda que sobre a técnica básica, uma vez que não se encontrava fácil quem estava disposto a recriar este mundo amorfo.
Ultimando a graça de alterar uma obra que no começo não tivera valor para mim, expôs-me sua fase posterior, e seria provável que estivesse humorado o bastante para querer esfregá-lo em meu rosto por eu ter agido com displicência sobre ele possivelmente entender alguma coisa dessas personificações falsas.
Todo o possível fora feito ao apreço do trabalho, pois Gabrielle injetara sombras e detalhes, desenhara vestígios da própria fisionomia, que, azar o meu, era semelhante – pensamento que retive para não sobrestimá-lo por estar idêntico. Ele, por ele mesmo, estava belo como não poderia ser mais vezes, ainda que numa grossa moldura de melancolia cujos ornatos acirrados não pude traduzir.
Um trabalho muito bom, bom à taxa necessária para compreendê-lo como cúmplice dali em diante, se as finalidades eram as mesmas, os movimentos e as estruturas postas em uma folha. Contudo, até eu admitir que precisaria dele para tudo, estaríamos trabalhando em nossa primeira e última relíquia.
- Eu disse: Falta de prática. – Gabrielle tirava os joelhos do chão, querendo livrar-se de mim antes que eu precedesse sua esperteza. Consegui arrancá-lo dos poucos passos que tomara, pelo pulso, forçando o emparelhamento dos olhares destoantes.
- Então és bom o bastante?
- Sou, ou não teria provado.
- Não podes fazer melhor. – Assim que adiantei-me à estreiteza de nossos corpos, vi que os astros verdes refizeram-me dos pés aos olhos, onde arraigaram-se outra vez, desenrolando suas raízes em minhas profundezas para enjaular minhas intenções.
- Posso. Com certeza tenho feito muito mais que a ti para ser melhor.
Arranquei-lhe o ar que animizava os tantos vocábulos inúteis, soterrando-os num beijo, e nada mais barganhei à certeza de que ele previra – deixando que eu estivesse livre para rebater-lhe à parede fria, envolto nos antagonistas dos braços seus.
As contenções desde o primeiro olhar trocado decorreram do orgulho que regávamos em cumes idênticos, abstraindo a aspiração carnal até digladiarmos no trono de nossos instintos, incapazes de submeter um ao outro por um único soberano da carne ímpia; e nas preliminares que esvaneciam nossas roupas pelo vagão, cogitei que Gabrielle seria tão insano à cópula viciosa quanto eu.
Minha primeira pederastia, o primeiro sorvo de eufemismo feminino; fissurando os colossos de carne que cerravam os portais da boa-venturança, fincando duas cinquenas de dedos em cada uma das abóbadas do Paraíso. Mas era covardia a minha, covardia à falta de óbices à forca, ao beijo em que estava emaranhado, constrangido também nas portas cilíndricas do contento iminente, da fênix aninhada num cálice tão oculto em seu ádito, para que eu não vacilasse, para que minha ambição desvairada espoliasse todos os bens, todos os compostos de sua santidade. A cada ímpeto, ia mais longe nas escalas da Terra, e ao anoitecer já havia rasgado a exosfera. Gabrielle grunhia, retalhava-me, ateava-me frêmitos imoderados para eu pertencer-lhe plenamente em seu Inferno galáctico.
A madrugada sucumbia aos açoites solares antes de eu findar a contento minhas delibações à presa cósmica, animalesco, convulso ao eco das garras que ele fazia serpentear enquanto eu o estrangulava em tantas avarezas. Inebriava-me de seu sangue, mastigando a pele que se regenerava cada ora mais adulçorada, fustigado pelos rouquidos que premia à minha orelha tanto quanto premeu-me sob si, bloqueando o Sol, seus dedos sendo cadeado aos braços onde eu o resguardava.
Assinado o tratado de paz, deslindaram-se não os dezessete, mas os vinte e três anos de Gabrielle. Sua personalidade era tão precária em sorrisos quanto a minha, poupando-nos de possíveis “bonequices” um do outro. Abrindo para mim seus segredos enrolados com o restante de seus pertences, contemplei sua luxuriante galeria móvel, mais absurda do que o que chegou até mim antecipadamente. Eu procurava espaço e Gabrielle procurava detalhes – tecendo em minúcias os primores dos grandes bordados de cada mundo germinado de seu imaginário de fada.
Isso encurtou a carona à estação veneziana, isso e minha incontinência ao vinho sólido que esbeltava Gabrielle. Atávamo-nos de novo, multiplicamos nossos ápices ao coro de cada constelação. Cada derme minha vibrava de expectativa à cada sessão em que atritava-se com o prado aveludado que eu ouriçava. A vertente dourada era chuva ácida à minha pele combustada, ingerida tantas vezes que nos exaurimos de novo – ele por dispêndio de sua essência, e eu em farta ebriedade.
Não tínhamos o que perder. Tínhamos nada, senão um ao outro. Descemos juntos o mais próximo que pudemos de Veneza, livrando-nos de um flagrante judicial, tendo-nos desacostumados à inércia do chão.
Reparar fome e frio exigiu o que prevíamos, e o que não seria fácil de conseguir, pois nossa vitalidade era igualmente humana e uma falta de cuidados seria o final da vida de um ou de ambos. Porém, chegou a mim que Gabrielle teve experiências à deriva, e para isto – em especial para vindicar a pintura – leiloou-se à moeda corrente e outras subsistências. Era o mesmo clássico biográfico do artista que resiste à miséria empenhando a sanidade. Sorte a minha que tivesse duas orelhas inteiras para que eu as devorasse, vez ou outra esquivando-me dos rugidos de meu estômago aos seus encantos naturais, minha única chama à vida errante. Assim, conseguimos nos isolar das madrugadas, enroscando-nos em qualquer toca. Exigimos de nós mais esforço do que vontade, pois de outra forma o Sol viria apenas soprar nossos cadáveres.
O Sol daquela manhã era mais cômodo que o anterior. Gabrielle não perdia dois passos sem clamar por um banho e suspirar. Abraçava o ventre desértico. Procurávamos movimento, tão cedo, com disposição para vender os trabalhos dele ou, quem sabe, sermos acolhidos por fraternidades. Chegamos a um chafariz, dando a borda ao nosso descanso, cuja água só podíamos abominar. Ofereci-me ao lavor por quaisquer trocados, insistindo que descansasse, pois a macilência era um adversário mais persistente que a própria força de vontade. Ele não questionou minha aflição, a primeira, consentindo com um ligeiro sinal de cabeça; arrebanhando seus próprios raios solares, adquirindo uma ostentação feminina tão pertinente à minha alergia ao pudor, que pruriu logo que as mechas ouriçaram o halo sob a cabeça e as demais ornaram de pequenas fitas o anjo sisudo.
Não me lembrava de par que prezasse tanto ao meu lado – ainda que há tão pouco desfruto –, nem de mim na sombra da calma. Instantaneamente todos os meus progressos comprometiam-se a uma felicidade conjunta, à blindagem da ondina alabastrina sentada na fonte de basalto que procriava o próprio verdor numa liturgia àquele espectro sirênico.
Durante o almoço, enraiveci-me quando a beleza dele levitou sobre as outras, trazendo mais perdulários que a quantidade de obras predispostas e as que tive que riscar. Brigamos, as insurgências quase físicas; mas Gabrielle suplantou-me à gratidão de seu carisma teatral. Pelo mesmo motivo, negociamos com os donos de uma pensão nossa permanência por trocados nem sempre monetários. O quarto era um compresso à única cama, casal onde mal cabiam dois; e sendo o único vago para duas pessoas, não indagaram se faríamos racionamento ao sono.
De vela às suas costas, chegamos ao cômodo. A gargalhada sucúbica lançou-me seus mistérios, rasgando a reprimenda dos meus ciúmes e desejos, para arremessá-lo no colchão, de pronto à outra orgia de maus princípios.
A joelhada nos colhões depredou-me instantaneamente ao seu lado. A testa no solo têxtil, as mãos escudando meus estilhaços, os dentes engalfinhados aos lábios. Gabrielle interrompeu-se no umbral do banheiro para contemplar seu efeito drástico, eu estando ainda acuado onde pretendi desfolhá-lo.
- Disse que precisávamos de um banho. Não faremos um coito de dois porcos, não nasci num chiqueiro para habituar-me a um. – Fechou a porta.
Rugi sobre o colchão.
Não votamos por nomenclaturas à nossa relação. Um seguia o outro, e quaisquer dúvidas e cobranças eram desnecessárias, fazíamos o que correspondia a ambos. Cada um por si poderia, talvez, ter aquistado algo melhor, como a morte e sua erradicação do opróbrio emergente. O que me afligia era a presciência de que curadas suas asas, Gabrielle arrebatar-se-ia à liberdade. Com que fúria, com que doçura, com que súplica, com que martírio eu poderia dissuadi-lo do céu por minha causa?
Quanto aos ciúmes? Fui seduzido, abduzido e isolado no estreito mundo de seus olhos verdes – da latência chamejante, latejando minha mente sã e erógena. Os objetos com os quais empenhei-me à viagem não valiam o que poderia ser vendido; em compensação, Gabrielle era uma jóia em cada um de seus dotes, uma seção de esmeraldas abundosa. Qual homem ficaria passivo à riqueza sua nas mãos de outros? Eu não pretendia residir em Veneza deserdado de novo. Gabrielle desonrava-se antes, era óbvia a reincidência. Ele também sabia que o trato com proprietários da albergaria não dava garantias de que nossa vida azarada ingressou numa trilha menos infeliz.
- Gianni? Estás morto?
Espreitou-se ao meu lado, adensando a cada joelho o perfume cáustico que pulverizara meu sono. Gemente, alcei a cabeça numa das mãos, esperando que as vistas desenturvassem as compleições floreadas, o manto úmido dos filamentos de ouro gotejando à minha delinqüência. Perfeito antagonista, Gabrielle ostentava a mesma imodéstia delegada ao entretalho de seus traços, com que por vezes espezinhava-me a humildade, tal cólera que poderia degolá-lo num ápice.
- Feliz?
- Quando desocupares a minha cama, sim. Os ratos estão na marcha em teu rastro.
- Sei que me queres afogado no banho. – Porém, submeti-me à lesão das pálpebras mais uma vez. Os dedos de Gabrielle vieram valsar em meus cabelos. Não era a primeira vez que eu os sentia, sentia-me grato por eles; entretanto, a cada novo toque que embalava minha exaustão, perecia num torpor sem igual.
- Deves te afogar num banho. Afoga-te com total pretensão, pois mais tempo de molho é menos tempo cheirando a esgoto.
- Mais tempo de molho é menos tempo contigo. Tudo o que queres é te apossares exclusivamente da cama.
- Eu não seria tal idiota de consentir que as necessidades orfanem meu pecado agora...
Se a putrefação da viagem tivesse o prejuízo de suas censuras, não teria me entreposto em suas pernas, obliterado os lábios à minha face, onde acamparam-se os dígitos fogosos; excursionado o tato, percorrendo o queixo. Queria me mobilizar, despender os truques de seu adestramento para dilatar o próprio ego. Inútil inocência a dele, desconhecendo o limite irrastreável de minha impertinência; mas eu sorria, afinal Gabrielle ainda treinava o hábito de agradar-me ao próprio contento.
- Não é toda mulher que anseia despedaçar-se nos braços de um homem.
- Razão pela qual não sou uma dama. – Retrucou.
Ateou-me seus dedos desde a nuca ao meu pescoço, no tempo em que sua língua cauterizava toda a orla de minha orelha, da qual degredara os cabelos. Esses dedos também correram à minha barba, sendo a última característica reparável à qual eu estava apegado – fazia Gabrielle convulsionar às infinitas ferroadas. Ele, aliás, concedia-me sempre sons imunes à adulteração das palavras; o mesmo às suas iniciativas, inesperadas, impensadas por ele mesmo, sendo livre das moderações da corte. Por causa delas, importava-me cada vez mais o sexo com o qual me amalgamava. Nem Deus imaginaria que eu, idólatra dos montes de Vênus, trocaria o dom de minhas mãos para bajular Sodoma com supremo louvor.
Poderia estar reagindo como ele pretendia, mas comecei esta vida sem dar a frente ao controle de outros. Expeli-me da cama, e Gabrielle rolou à outra metade, perseguindo meus passos com as nebulosas verdes vitrificadas em seu olhar. Seria desproveito de saliva ressarci-lo de qualquer explicação, pois já me conhecia como o amante vingativo e infantil. Nada como devolver a mesma lâmina, limpa, depois de espoliá-la da seiva vínea; e Deus se cansava, eu era um repetente das índoles baixas. Não permitiria que caso algum me escapasse, e ainda pensava em levantar meu nome naquela cidade para voltar a Massa-Carrara e descascar com meu ouro o rosto dos dois pivetes que me deserdaram dos direitos de amante.
Chegamos a uma rotina completando um mês em exílio veneziano. Todos os dias, Gabrielle e eu tomávamos caminhos opostos da propaganda de nossos talentos. Sua habilidade era conseqüência de um dom para desenhos em preto e branco; mas eu desacreditava estar trabalhando com algo morto, sem cores, sem paranóias, sem cheiro, sem textura, sem vontade. Nasci para o cume tóxico das cores, e para o álcool que as encerra em formas imaginadas.
Tínhamos tintas mínimas e nenhuma tela. Gabrielle assumiu o papel de matriarca entre nós, e quando uma vez projetei minha insânia cromática ao lençol, por uma semana não esputou qualquer ruído. Resolvi com um assalto durante a madrugada, desbravando o confim dos sinos que tanto ansiei por badalar a fora dos lábios entufados. Debateu-se até o gozo, até o abalo vulcânico que sobejou de suas lavas cúpidas a cama. Domado seu mau humor, pagamos por outro lençol, sendo que quase nada daquele quarto nos pertencia.
Gabrielle procurava ordem e discrição. Eu sempre fui infrene. Entretanto, eu o expunha cada vez mais a constrangimentos. Com os gritos que eu repedia à minha perfeita varonia, os novatos da pensão não demoravam a descobrir que todos os dias pandegávamos em nosso Inferno. Ele se exasperava, afligido pelos presságios irrequietos de seu moralismo, e me arrancava todo dinheiro que eu conseguia em excesso – ainda que miserável – para esconder escondê-lo à avareza que nos traria melhores materiais.
Nossa vida conjugal me inspirava, desmesurava a obscena paixão pela arte, aspirante à receita inescrutável do Criador culminada em meu amante. Gabrielle transformou-me num súdito de emoções flamipotentes. Passaram-se cinco meses, e não me habituei às suas lágrimas, embora fosse a quarta torrente que repudiava a sina indigente. Gabrielle era órfão, também. Várias vezes fremia à decisão de leiloar-se outra vez à classe decrépita que melhor remunerava, mas eu dissentia, era cioso demais para entregá-lo a quaisquer braços que haveriam de deslustrá-lo. Mesmo como homem, Gabrielle era tão mais sensível do que eu, tão mais sensível do que qualquer humano. Por causa dele, eu traía as ostentações do que fui e do que pretendia ser.
Gabrielle...
Graças à vida que me prodigava, pude racionar a inspiração que concebeu nossa maior obra: O Amor.