xx/xx/1879

Ao meu benquerido amigo, Gaspar,

A princípio, devo formalizar este escrito perguntando como vão tua esposa e teus filhos. Creio que o segundo já esteja nascido, nestas margens de Dezembro. Por qual nome o batizastes, se o primeiro já está fadado a ser de tua estima uma duplicata? Se for uma menina, decerto o batismo prestigiará a mãe. Aliás, como está minha irmã? Tão ostensiva de beleza e riqueza, como sempre? E vossos amantes? Quantos cornos doem em ti neste instante, amigo Gaspar? Embora minhas lembranças reafirmem que o não és de te açoitares por mais de um cacho. É provável que assines o compromisso de afortunares qualquer criança tão mulata quanto “vossa mercê”.

Inclui-se em meu interesse os teus quantiosos negócios. Como tem sido administrá-los sem a minha preceptoria? Os boatos de tua falência impendente têm chegado à capital, transmitidos por todos os patrícios. É-me incompreensível o que vos tem atraído tanta desgraça e difamação! Cruel é o Deus quem faz desmoronar o palanque dos homens no zênite de sua gozação! Sorte a minha a de ter sido apartado de vossa família. A humilhante quantia doada por meu pai à minha expulsão tem se triplicado, e calculo que até antes de o destino me finar, jamais a terei gastado. O quão irônico é o acaso? Visto-me dos trapos mais requintados agora, no tempo em que tamanha calamidade vos assola, predestinando-vos a esmolardes o teto de alguma senzala. Como fui tolo ao me lamuriar pela independência que decorreu daquela armadilha à índole inocente que eu tinha!

Escrevo-te, portanto, para agradecer-vos tamanha oportunidade e prevenção contra a peçonha característica de todas as damas – as quais não se penalizam nem por seus irmãos. É-me gratificante cada pretendente que posso recusar, ademais se, deste modo, posso deleitar-me com a libertinagem que me foi atribuída e escarnecer de todos os corações que trocam passagem sobre minha cama, enquanto o amigo nada me prometia além de inanição em belíssimas locuções. Consegues imaginar o quão mais esbelto me tornei entre os vinte e seis e os vinte e sete? Felizmente, minha maturidade resguardou a minha imagem dos vinte anos, quando fomos apresentados.

Dir-lhe-ia que tua procura me seria de bom grado, no entanto a tua turba me provoca asco, e mais do que os escravos. Não tenho repulsão sobre eles, e sim o contrário, mas metaforizo pela sujidade à qual estão condenados, e que são imolação a qualquer olfato. Posso confirmar meu respeito: Sou muito amigo de minha cozinheira, Joana, e do único filho, Caetano. Aliás, minha intimidade com ele sobressai das palavras à tangibilidade. Se eu tivesse saboreado antes estas sementes africanas, certamente teria defendido meu despudor com o mesmo sorriso sardônico com o qual estou redigindo a “vossa mercê” neste instante.

Por fim, confesso-te que estou apiedado à vossa condição e que esta entrega contém um excelente capital. Recebas Caetano contigo como a um cavalheiro, e se também careces de conselhos inteligentes, divorcies antes de seres prejudicado por outros bastardos.

Por favor, não adquiras uma conclusão nefasta da afável leitura que tenho proporcionado a “vossa mercê”. É em toda a amargura que confidencio o amor que ainda sinto, e que nem o teu ultraje, reforçado por aquele motim de falsários, pôde me expurgar da descabida emoção. Entretanto, o senhor optaste por um caminho onde eu jamais poderia me encasar.

É pelo mesmo amor que desejo ao senhor toda a felicidade mundana, crente de que paz de espírito nunca mais terás, enquanto não me tiveres contigo. Sei muito bem que agora me amas como nunca antes amaste. Sei desde a primeira vez que quiseste saber de mim pela lábia de outrem.

Como é duro viver, onde todas as significações de nossa existência são as candências de cada pecado, pelos quais pagamos com a carne. Nem a alma, a relíquia do nosso ser, vale à mesma careza. E agora, querido Gaspar? O que mais podes penhorar?

Recebe os votos de minha solidariedade.

Com amor,

Leonardo